sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A terrível história de Brasileiro, o infeliz



“Trouxe a muriçoca?”


Era uma vez Brasileiro. Quando foi um dia, Brasileiro, sem saber como, estava numa fila enorme. Perguntava a um e a outro por que estava ali. E a resposta era essa: "Não sei. Também estou nessa fila e não sei porquê." 
 
http://canetinhasemicrofones.blogspot.com.br/2008/03/mosquito-morde.html
Nisso chegou um funcionário. No peito um crachá que informava qual o órgão público onde ele trabalhava: Instituto das Instituições Instituídas para Instituir novas Instituições e Cobrança de Taxas e Emolumentos, Tributos, Contribuições de Melhoria, Propinas e Etc...".

Brasileiro dirigiu-se a ele: "Senhor, posso saber o que faço nesta fila?"
O funcionário respondeu: "Não sei. Trabalho aqui mas nem mesmo eu sei o que faço aqui. O senhor vai ter que pegar uma ficha para se informar. Vá até aquele guichê, para receber a sua ficha."
Brasileiro: "Obrigado."

Foi ao guichê, esperou em outra fila e afinal foi atendido.
"Ficha?", disse o funcionário.
"Ficha", respondeu Brasileiro. 

Então, o funcionário perguntou: "Trouxe a muriçoca?"
Brasileiro quase cai para trás e quis saber: "Muriçoca? Pra que muriçoca?"

A resposta: "Aqui só tira ficha quem traz uma muriçoca. Se não trouxe vá para aquela fila. Lá, eles dão fichas que dão direito a uma muriçoca. Você vai ao Criatório Nacional de Muriçocas, apresenta a ficha, eles lhe dão a muriçoca, você volta aqui, pega nova ficha para eu atendê-lo novamente, eu lhe dou uma ficha e depois você vai para outra fila. Será atendido por outro funcionário e ele vai informar porque você está na fila."

Brasileiro dirigiu-se à fila para pegar a ficha de atendimento no Criatório Nacional de Muriçocas. Depois de muito esperar recebeu a ficha de número 900.000.000.000.890.000.789.982.000.000.000.777.663.000.444. 000.767.980.765.000.000.123.456.789.3334-687.987.987.095.876.456
.4329.899.999.678.543.765.900.888.076.776.98763535353535353, 79885873551414..6776737.563724131666

Quando Brasileiro viu a numeração sentiu que estava numa enrascada. Não tinha a menor ideia do motivo pelo qual estava ali, ninguém sabia informar nada e ele ainda tinha que pegar fichas e mais fichas para ter direito a novas fichas.

Diante de tal a lamentável situação resolveu sair e ir para casa. Quando um guarda notou que ele estava saindo, disse: "Vai sair?" 

Brasileiro respondeu: "Vou, não aguento mais ficar aqui e vou embora."

O guarda foi curto e grosso: "Pode não. Bateu aqui dentro só sai depois de ser atendido. Isso aqui é Brasil, rapaz! Tã pensando o quê? Volte já para a fila, para pegar a ficha da muriçoca."

Brasileiro argumentou: "Mas, quando eu vou ser atendido? Já viu o número da minha ficha?" E mostrou o papel com o absurdo número ao guarda.

O sujeito fez uma cara de espanto: "Óóóóóóóóó." Então, chamou Brasileiro a um canto e disse: "Negócio seguinte. Eu posso dar um jeitinho..."

"Pode?", perguntou Brasileiro quase feliz.
"Posso", garantiu o outro. "Mas precisa rolar uma merreca. Sacomé, né?"
"Seicomé", disse Brasileiro. "E quanté?" 

Era pouco, garantiu o guarda. Por um salário mínimo ele daria a Brasileiro uma muriçoca e ele poderia afinal saber porque estava ali – depois de cumpridas outras formalidades por acaso existentes, claro. 

O guarda facilitou: aceitava cheque. Brasileiro nem pensou duas vezes: passou um cheque sem fundos ao guarda. Poucos minutos depois estava com uma linda muriçoca num belo e transparente frasco. O guarda era contrabandista de muriçocas.

Em seguida Brasileiro encaminhou-se ao funcionário encarregado de receber as muriçocas. Chegando lá o homem disse: "Adianta não. Tá faltando um carimbo que eles dão na asa direita da muriçoca atestando a procedência. Além disso, tá faltando duas meias, um pedaço de pneu de caminhão e três palitos de fósforo, para fazer juntada ao processo."

Brasileiro deu um grito de desespero e quis fugir para outro país. Vizinho àquela repartição havia outro país. Parece que eram os Estados Unidos. "Opa! Vou para os Estados Unidos e lá eu me faço!"

Mas, quando Brasileiro já ia pulando a cerca o mesmo guarda da muriçoca pulou em cima dele e disse. "Epa! Teje preso. Pra fugir também tem que pegar ficha! Somente foge daqui depois que os home derem ficha..."

Brasileiro então, implorou: "Não aguento mais fichas. Posso ao menos me suicidar?"

O guarda: "Tá difícil. O país é pobre e só tem um revólver público para suicídios. E mesmo assim tá faltando bala. Pegue aquela fila ali e..."

Brasileiro nem esperou: caiu seco ali mesmo, mas não foi enterrado porque não tinha tirado ficha para a morte... A família entrou com um processo pedindo direito a enterro mas os juízes estão em greve...
 
---Falando nisso... você tirou ficha para ler este texto?
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ZOORÓSCOPO
Traíra - Quem está sob a regência de traíra tem por vocação natural a traição e o descaminho. Cuidado quem estiver mantendo romance com um trairiano ou trairiana. Especialmente se esse alguém for do signo de Minhoca. Minhoca é isca e sempre acaba devorada...



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