segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Mais uma conversa com Cascudo

O Mestre e o lobisomem

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas
"Isso é bom."
(Palavras do filosófo Immanuel Kant, pouco antes de morrer)


Uma das coisas que mais gostava de fazer, quando repórter da editoria de Geral, era entrevistar Luís da Câmara Cascudo, o Mestre Luís da Câmara Cascudo. Dali, de sua casa na grande subida da Junqueira Ayres, o Professor via o Potengi amado e descortinava todo um mundo de lendas, mistérios, cantigas e danças, credos e medos que o Homem tem guardado dentro de si.

 Certa vez, pautado para entrevistar o Professor, passamos uma bela tarde conversando. Terminamos falando exatamente sobre lendas e crendices populares. As coisas do povo, a fé do povo, o medo irracional que nos acompanha a todos e se aflora nos momentos de tensão ou insegurança.

Ele me falou do saci-Pererê; disse que o molequinho, em tempos outros, fizera muito medo a muitos e comparou essas épocas passadas com o tempo em que a entrevista transcorria (anos 70) e lembrou: o medo do saci, se transformara no medo da perda do emprego, no terror da altíssima inflação que corroía o país.

Explicou o Mestre que o medo persiste, somente se apresenta sob formas variadas, dependendo do estágio em que se encontre uma certa sociedade. E vieram outras lendas: a caipora, o bicho-papão, a mãe d’água, a boitatá, o lobisomem, ah, o lobisomem.

Sobre a boitatá - me lembro como se fosse hoje - ele comentou: “ Bicho grande, cobrona que brilha de noite, iluminada toda pela luz dos olhos dos bichos que já comeu. Os olhos ficam brilhando dentro da cobra, meu filho... E disso o povo tinha medo, nisso o povo acreditava.” E completou: “Hoje, a boitatá é a inflação”, e deu uma de suas gargalhadas, envolto na fumaça do charuto.

Sentado em sua cadeira de espaldar alto, largos apoios para os braços, o Professor foi servido de água por Dona Dhália, sua mulher. Nisso, ele virou-se para mim e disse: “Já estou quase mandando você baixar em outro terreiro” (era com essa expressão que ele gaiatamente expulsava seus entrevistadores). E disparou de letra: “O que mais você quer saber?”

Perguntei: "O senhor acredita em Deus?", ao que ele respondeu: "Acredito em Deus, quero bem a Nossa Senhora, tenho medo de lobisomem." 

Fiquei espantado: “Professor, o senhor tem medo de lobisomem?” Sorrindo, após mais um fumarento aspirar do charuto, respondeu. E sua voz tinha um tom sombrio, pesado sortilégio de quem sabe de tudo. Disse:

Não, meu filho, não. Aqui dentro desta casa, sentado em minha cadeira, nesta cidade do Natal, sob a proteção das luzes que nos cercam, digo a você que não. Mas, no sertão, numa noite de lua, numa sexta-feira aziaga, a cruviana* me rondando, digo que sim. Numa hora dessas meu filho, eu tenho medo de lobisomem. E agora, vá baixar noutro terreiro.”
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Cruviana: o frio da madrugada, no antigo falar do sertão.