sábado, 27 de setembro de 2014

De como virei "secretário do Cão" no meio de uma fogueira



Grande baderna na Pensão Calango

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No ano de 1930 morava eu em Natal. Mais exatamente na Pensão Calango, na verdade Hotel Hospedaria S. Francisco das Boas Almas, localizado numa ruela na Ribeira. Dadas as suas modestíssimas  acomodações o hotel havia recebido dos seus ocupantes aquele título; bastante elucidativo como se vê. Ali se arranchavam estudantes como eu, caixeiros-viajantes, ocasionais visitantes da cidade e, algumas vezes, indivíduos de trato furtivo. Devo supor fossem fugitivos, falsários, vigaristas, muambeiros e que tais.


Pois bem, dentre esses tipos eis que chega um que se apresentou como "alta autoridade em coisas místicas". Era um tipo alto, magro, branco de cabelos avermelhados e crespos. Os olhos, muito pretos, completavam a figura. Levemente encurvado, era de poucas palavras e recebia pessoas que iam "pedir conselhos e fazer trabalhos". Quando isso acontecia ele fechava a porta do quarto a chave e se ouviam cantorias e loas numa língua estranha. Algumas vezes gritos horrendos; guinchos cortavam os ares e então silêncio total . Pouco depois o consulente saía dizendo "está bem. Agora está tudo bem."

Certa noite cheguei tarde das aulas. O quarto do tal sujeito ficava nos fundos do quintal da hospedaria e para lá me dirigi ao ouvir chorosa ladainha que aos poucos se transformou em um batecum pesado, em meio a grande falariço que virou cantar forte e rápido. Aproximei-me da janela lateral e, pela fresta, vi a seguinte cena: o tipo estava entonado numa capa preta que lhe chegava aos pés e tinha acendido uma fogueira no meio do quarto. A seu redor uma ciranda de mulheres dançava um samba de doidos.

Ao fundo sentava-se um homem de cabelos brancos, que gritava: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?" 

E aquele círculo de dementes respondia:"Ele vai chegar! Ele vai chegar!" e continuava a dança. O da capa preta dava voltas rápidas e fortes fazendo o manto abrir-se, o que lhe dava poderosa aparência de taumaturgo do além. Para melhor ver a cena subi ao telhado do quarto, afastei umas telhas e de lá continuei a acompanhar o amalucado espetáculo. 

Para completar, um amigo meu, colega de hospedaria, também fora atraído por aquela loucura, e ao ver-me encarapitado correu para perto e ficou a meu lado. Perguntou: "O que diabo é isso?, e eu respondi: "Só Deus sabe o que  é isso. É negócio de doido."

Nesse instante o homem de cabelos brancos insistiu: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?", ao que turma toda respondia: "Sim! Ele vai chegar!, e o homem retornava: "E vai trazer o dinheiro? Vai trazer o dinheiro?!" 

E todos, no mesmo tom, garantiam: "Sim! Vai trazer o dinheiro! Vai trazer o dinheiro!"

Aí, aconteceu outra loucura: as mulheres se apoderaram de latas cheias de água e jogavam no sujeito, dizendo: "Toma este banho de salvação! Fica limpo que a fortuna vem!". Encharcado, o pobre começou a dar saltos enormes e se dizia forte e poderoso e berrava: "Agora que ele chegue e traga o meu dinheiro! Estas rezas fortes vão me fazer ficar rico!"

Então o mestre daquela cantilena apoderou-se de uma chibata e passou a surrar o infeliz que gritou: "O que diabo é isso? Pelo amor de Deus, o que diabo é isso?", enquanto a chibata ligeira o açoitava. O mestre respondeu que aquilo era a "limpeza" da alma. "A surra divina retira o pecado!", e lepo no lombo do coitado que se desesperava e insistia com a pergunta: "Ele vai chegar? Ele vai chegar? Quero que chegue, e chegue logo com o meu dinheiro!"

Nesse momento meu amigo se mexeu e foi o suficiente para um desastre: as telhas se deslocaram, um caibro cedeu, outro também, uma ripa se partiu e o telhado veio abaixo. Caímos bem no meio da bagaceira. O feiticeiro gritou: "Pronto! Ele chegou: e veio logo dois. Veio logo dois, tá vendo?!" Diante disso o homem surrado não se fez de rogado e atirou-se ao meu pescoço perguntando "onde estava o dinheiro". Queria saber se eu "era o representante das almas" e como iria ajudá-lo a sair da falência de sua bodega.

De nada adiantava negar que fosse eu o representante das almas. O homem continuava sua inquirição e partia para cima de mim e do meu amigo. O mestre gargalhava alto e sua ciranda de mulheres loucas dançava sem parar. Nessa luta a fogueira cresceu e tomou conta do quarto. Todo o Hotel Hospedaria S. Francisco já estava desperto e correu para ver aquela cena de alucinados.  O corre-corre e o falariço tomavam conta de tudo. As chamas se espalhavam e assumiam proporções enormes e o homem lá: "Você é o representante? O representante da almas? Se é o representante, onde está o dinheiro? Cadê o dinheiro que Deus mandou, fila da puta?"

O dono da pensão e os moradores, vendo isso, partiram para cima de mim, do meu amigo e dos desmiolados, gritando: "Bando de catimbozeiros! Bando de catimbozeiros! Arreia o pau no lombo deles! Arreia o pau!" 

E o pau cantou. Uma velhinha, empunhando uma cruz e uma enorme vela, como se já não bastasse tanto fogo, cantava:

"Queremos Deus, homens ingratos
"Ao Pai supremo, ao redentor
"Zombam da fé os insensatos
"Erguem-se em vão contra o Senhor
"Dá nossa fé, oh! Virgem, o brado abençoai
"Queremos Deus que é nosso Rei
"Queremos Deus que é nosso Pai"

Para atiçar ainda mais a assembleia de dementes aconteceu o seguinte: nas imediações morava um padre que sofria de insônia. Quando ouviu toda aquela lamúria, cantilenas, loas e proclamas alucinados, veio ver o que era. Percebendo que o louco se atirava ao meu pescoço correu para me ajudar, gritando: "Em nome de Deus parem com isso!" E dizia: "Irmãos, vamos rezar em outro credo. Abaixo o catimbó!" 

Mas deu tudo errado. As pessoas pensaram que o padre também fazia parte do magote e baixaram-lhe o pau, urrando: "O pade tá chamando Deus pra perto do Cão! O pade tá chamando Deus pra perto do Cão! O pade é do catimbó!" No meio da confusão o mestre de todo aquele pandemônio se evadiu, bradando: "Taí! Isso é a paga por terem prejudicado os trabalhos!" E sumiu junto com as mulheres loucas.

Para encerrar: o bodegueiro foi dominado e eu fui posto a ferros. O padre também foi preso. Meu amigo conseguiu escapulir. Logo depois a polícia chegava e fomos parar na delegacia.  Lá, o delegado, já quase duas horas da manhã, disse: "Bota todo mundo no xilindró: o comerciante porque é desordeiro; o padre porque é padre mas é também catimbozeiro, e esse aí porque é o secretário do Cão".

O "esse aí" era eu; e somente então fui perceber o motivo da acusação de ser o "secretário do Cão": no meio da desordem a capa preta tinha ficado presa ao meu pescoço e eu estava, para aquelas pessoas, vestido de ajudante do Cão: dos pés à cabeça, literalmente, eu era amigo do maligno. 

Passei uns dez dias preso, só comendo pão e água. até que um tio meu soube da tragédia e veio me soltar. Quando me viu em estado tão lamentável, disse: "Que vergonha, meu filho, que vergonha. Que vergonha para a família. Além da cachaça, que eu soube que anda bebendo muito, agora deu pra catimbó..." E completou, horrorizado: "E pra que tá vestido de secretário do Cão, condenado?!!!!"




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