quinta-feira, 3 de julho de 2014

Cascudo, uma lembrança

O mestre canguleiro
 Emanoel Barreto
 
Conversar com Cascudo era descobrir um tempo velho passando à sua frente. Era mergulhar na história arcaica escrita pelo povo. Era virar páginas e páginas inteiras de cores, fandangos, jangadas, bichos e gentes; vozes de acá, nascidas ibéricas ou africanas. Conversar com Cascudo era perscrutar a vida no seu mais íntimo significado de coisa humana.

Conversar com Cascudo era descobrir um homem feito de sabedoria. Conversar com Cascudo era viajar o chão do sertão, a noite, a brenha secreta; cruviana esfriando o passo do cavalo do vaqueiro em noite de plenilúnio: arrepio com medo de lobisomem.

Conversar com Cascudo era alumbrar-se com as visagens, os cantos do povo, os aboios, a comida da terra; caçuás, canga e cantiga de botar menino para dormir. Conversar com Cascudo era ouvir o tempo severo do Nordeste em sua eterna e serena espera pela chuva criadeira.

Conversar com Cascudo era ouvir o sábio da aldeia, tão dele e tão canguleira. Conversar com Cascudo agora é uma saudade quando a vida já não anda em cavalo baixeiro e estamos todos à mercê e ao léu do não-sei-mais.

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