segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ainda bem que não explodiu

A máquina e o gás aberto


Corria o ano de 1974. Meu primeiro ano como jornalista. Uma tarde calorenta de rachar. A redação do Diário de Natal funcionava na Deodoro, onde hoje só existe saudade. Naquele tempo o DN tinha um suplemento dominical, o Módulo 3  onde os repórteres exercitavam seu lado mais criativo, com textos trabalhados.
http://www.youtube.com/watch?v=GvBPIkIkmhM

Eu era repórter policial, um aprendiz de redação. Pois bem, foi nessa tarde suarenta que apareceu na redação, vindo-se sei lá de onde, o fotógrafo Paulo Saulo, com uma pequena escultura em vidro de lâmpada fluorescente:

uma pequena cegonha cheia de água colorida, que ele exibia todo orgulhoso. E contou, cheio de si: “Isso é feito à base de fogo. O cara, o artista que faz esses bichinhos, trabalha o vidro a quente e faz qualquer coisa com o vidro. Quer fazer uma matéria com ele?”

É claro que aceitei na hora. Seria uma bela matéria para o Módulo. E lá me fui eu, na sacolejante Kombi do jornal, rumo à Ribeira onde ficava a oficina do tal artista. Chegando, Paulo Saulo, hoje falecido, saltou rápido da Kombi e indicou onde iríamos fazer a matéria: “É ali. Naquela casa, que vamos fazer a matéria com o cara.”

Chegamos, nos apresentamos e o artista, alegre com a possibilidade de ficar conhecido, recebeu-nos de braços abertos. Eu perguntei: “Onde vai ser a entrevista?” Ele respondeu “ali” e apontou para a sua “oficina”. Olhei e confesso não gostei do que vi: um quartinho apertado, quentíssimo, cheio de bujões de gás - lembre-se de que o homem trabalhava com fogo. Intimamente comecei a ficar preocupado com aquela reportagem.

Fogo, local apertado, gás, nenhuma segurança, huuum... Mas, afinal, eu estava ali para fazer a matéria. E entrei. O homem fechou a portinha do quarto, acendeu o maçarico, pegou uma lâmpada fluorescente de onde se tinha retirado toda aquela tinta branca que recobre o vidro, que, assim, ficou completamente transparente. Claro, tinha que ser transparente, para ser possível ver a água colorida dentro da escultura.

Fez isso e começou a trabalhar. O calor foi aumentando, até se tornar insuportável. O homem era realmente um mestre: tornava o vidro incandescente e trabalhava com rapidez. Paulo Saulo, encapetado, saltava de um lado para o outro, escolhia ângulos, colocava a objetiva em planos mais altos, mais baixos, fechava nas mãos do artesão, pegava planos gerais da cena.
Eu, que já havia feito um quem-é-quem com o homem, suava em bicas, até que ele afinal deu por concluído o seu trabalho, apresentando-nos uma estatueta de não-sei-lá-o-quê.

Terminamos tudo. Dei graças quando saí incólume do quartinho; até mesmo porque, nos cinco minutos finais, pensei estar sentindo cheiro de gás. Agradecemos, fomos para a redação e fui preparar o texto. Ficou bom, bom mesmo, para a minha alegria de foca.

Saulo embrenhou-se no laboratório fotográfico do jornal e toca a demorar, a demorar, a demorar, até que, cansado de esperar, fui até lá e o encontrei:
“E aí, Paulo, as fotos ficaram boas?”


“Não”, foi a resposta.


“Mas por que não ficaram?”


Ele olhou para mim com a cara mais lambida do mundo e disse: “Esqueci de colocar filme na máquina. Desculpe."


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