sábado, 9 de novembro de 2013

O ladrão e os velhos catimbozeiros

 Mexendo no blog encontrei este texto e resolvi republicar:

A toalha roubada e os velhos catimbozeiros: uma história meio amaldiçoada

Diário de Natal, um sábado qualquer de 1975. O repórter Pepe dos Santos tinha saído para uma matéria importante do noticiário policial e eu, um foca sem graça, fui mandado a uma delegacia fazer uma matéria. “É só queda de bebo, Barreto. Só pra fechar a ronda”, disse Alexis Gurgel, editor de pol


“Queda de bebo” era a expressão que significava matéria besta, sem futuro, coisa menor do submundo do crime e da vagabundagem. Eram relatos curtos, publicados na coluna Ronda, sem assinatura.


Peguei o carro e desci. “Descer” queria dizer sair da Avenida Deodoro, onde ficava o Diário, fuzilar ladeira abaixo e ir parar na Ribeira, a Cidade Baixa. Fui à Roubos e Furtos ou melhor: à Delegacia de Furtos, Roubos e Defraudações. 


Falei com o delegado, ele deixou-me ir à carceragem mas avisou: “Só tem um marginal. E marginal escarradeira”, ou seja: bandido menor, ladrão de roupa em varal, lanceiro. Aquele tipo que, aproveitando um descuido, dava um “lance”; metia a mão no que estivesse perto e corria.


Pois bem: o marginal era um sujeito esguio, pequeno, manhoso. Sentei no chão ao lado da grade, ele contou que tinha dado um azar danado quando furtava nem sei mais o que e uma radiopatrulha que passava o metera na chave.


Anotei a lorota e já ia saindo quando ele me chamou: “Quer uma história legal para você fazer munganga no jornal?” Eu disse que sim e ele contou o seguinte:


“Quando eu era menino minha mãe tinha o maior medo do mundo que eu virasse ladrão. Ele já tinha notado que eu andava perto da casa de dois velhos, um casal, olhando muito pelas janelas. Notou minha intenção e avisou:  ’Não se meta com eles que eles são catimbozeiros. Se pegarem você comem seu figo.’ Fiquei com um medo danado e por uns tempos não cheguei perto dos velhos.”


“Mas, um dia, notando que há tempos eles não apareciam na porta da casa criei coragem e entrei lá. Invadi a casa dos velhos. Era uma casa escura, feia por dentro, e saí batendo pelos escuros. Senti um cheiro ruim e pensei: ‘Tão fazendo catimbó.’ Segui no rumo da catinga e entrei no quarto dos velhos. E aí tive uma visage, a coisa pior do mundo. Tavam lá os dois. Tavam deitados na cama, um do lado do outro. Cheguei mais perto e vi que estavam mortos. Dei um pulo e saí correndo feito um doido.”


“Somente parei em casa, o coração quase saindo pela boca. Minha mãe perguntou o que tinha havido e eu disse que tinha ido na casa dos velhos e eles tavam fazendo catimbó. Minha não disse: ‘Tá vendo?’, e completou: ‘E o que você tá fazendo com essa toalha enrolada no pescoço?’”


“Somente aí notei que na carreira em que tinha vindo uma toalha do varal da casa dos velhos tinha se enrolado no meu pescoço. Acho que foi mesmo um catimbó. Aquela toalha me fez ficar ladrão.”


Foi a única e miserável história que apurei naquele sábado. Voltei à redação, mas não quiseram publicar. Caíram na gargalhada e eu fiquei ali, parado, meio tonto. Hoje lembrei desse caso e conto a você. E sabe que era mesmo uma boa matéria? A toalha maldita que fez um menino virar ladrão? E agora, vendo os ladrões de gravata, penso: será que eles também não eram meninos que queriam roubar coisas em casa de velhos catimbozeiros? Acho que eram, eram sim: meninos ladrões com toalhas enroladas no pescoço.

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