domingo, 28 de outubro de 2012



Chegou a hora: Carlos Eduardo contra o fantasma de Eliseu Satanás
www.glaucialima.com/2012/05/

Meados dos anos 1980. Em Natal uma redação de jornal fervilhava em magnífico e vertiginoso caos, coisa de quatro da tarde. Em meio ao pandemônio um jovem ali chegou, trazido pelo pai para ser apresentado ao editor, com a seguinte orientação: “Trate-o como você trataria qualquer repórter.” O jovem era Carlos Eduardo, o pai o jornalista Agnelo Alves e o editor era eu. O jornal, claro, era a Tribuna do Norte. Ouvida a ordem, respondi: “Pode deixar.” 

Agnelo, com aquela sua voz nasal, agradeceu e saiu. Mal deu as costas, fiz pior: o menino entrou imediatamente em pauta e foi mandado a um arrabalde de Natal fazer o que chamo de “entrevistar poste de luz queimada” ou “entrevistar buraco”, vale dizer: sair em busca de uma matéria menor, típica de um novato, perfeita para um foca.

Carlos foi e voltou com um texto claudicante sobre não sei o quê. Aos poucos foi aprendendo e passou a fazer matérias mais difíceis. Veio afinal o teste de fogo: entrevistar um sujeito perigoso que atendia por nada menos que Eliseu Satanás. O nome dá ideia do que era. Que me lembre, era um tipo agressivo, truculento, que dentre outras atividades criminosas estocava gasolina clandestinamente em enormes tambores para vender a preços acima dos praticados pelos postos. Chegou mesmo a desafiar a duelo o terrífico Mão Branca, brutal matador de bandidos na época, a que viesse tentar matá-lo. 

O noticiário chegava a ser agendado pela sinistra figura, tais eram suas proezas. Assim, após receber a pauta, Carlos foi, fez a entrevista e dia seguinte a matéria foi manchete. Furioso com o repórter, Eliseu postou-se à porta do jornal e ficou aguardando. Seu propósito: surrar o repórter que considerara insolente. Chegando à Tribuna perguntou quem era aquele impertinente e recebeu a resposta: é o filho do dono do jornal. Diante disso Eliseu achou por bem arquivar seus intentos belicosos e partiu. Carlos escapou por pouco. 

Hoje, vendo o resultado da eleição, veio-me à memória o episódio. Hoje, vendo Natal como está, sofrida e acanhada, chega-me também uma espécie de temor, um lamento íntimo, pequeno clamor que tenho em mim: Natal arrasada e, quem sabe, dando guarida em seus escombros ao fantasma de Eliseu Satanás, que passeia uivante em meio às nossas ruínas. 

Carlos, que deixou o jornalismo para seguir a política, agora vai se haver de alguma forma, outra vez, com o raivoso bandido, no sentido parabólico que aqui proponho. Mas não, não o coloco na posição do herói ou qualquer outro ser dotado do dom da vitória, arrojado e destemido. Não. Quero dizer que o desafio é real, palpável, visível. Não é brincadeira, nem ele está mais sob o pálio protetor do nome do pai ou sob os auspícios flamejantes do seu marketing.

A luta será grande e ele mesmo já disse que se dá 200 dias para resolver e deslindar o caos. Ou faz isso ou o fantasma de tempos distantes sairá vitorioso. É preciso lembrar que foi eleito com 214.687 votos contra 153.522 de Hermano Moraes, uma diferença de 61.165 votos, creio que uma boa margem.

Por outro lado, houve 15.749 votos em branco, 40.135 votos nulos e 102.324 abstenções. A soma dá o impressionante total de 158.208. Isso significa um universo votante às avessas. Isso representa manifestação de vontade, voto de protesto, insatisfação com o quadro instalado de uma prática política que não mais é aceita pelo ser coletivo a quem chamamos povo. Pode-se falar, pelo visto, de uma forma de manifestação de sociedade civil. 

O eleito precisa meditar a respeito. O número de desesperançados é indício forte, poderoso, de sentimento de repúdio aos agentes políticos. A cifra representa segmento da sociedade que vive momento de descrença ante nossa cultura política, quando candidatos tudo prometem na campanha, mas pouco realizam, a não ser a manutenção do aparelhamento do estado: a política como, até mesmo, meio de vida e ambiente de negócios, no pior sentido do termo. 

Mas, é isso: ou o eleito toma a decisão de refazer Natal ou temo que o fantasma de Eliseu Satanás, em seu último gesto de vingança, vai derramar sobre a cidade todos os seus tambores de gasolina e transformar nossa cidade num inferno.

Um comentário:

Anônimo disse...

Salve Jorge! Ops, Salve Professor Barreto! Prazeroso ler seus posts. Sem nenhum compromisso com nenhum político. Seu compromisso consigo mesmo e com seus leitores. Admira quem tem que admirar, critica quem tem que criticar, reservadamente tira do arquivo da memória suas vivências e coloca na atualidade.É isso Professor, alguém aí, salve Natal!
Patrícia/ Lagoa Nova/Natal