quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A doce vingança de um monstro



A mulher nua e a faca ensanguentada

Pegando gancho no comentário que fiz logo abaixo sobre o fim do Diário de Natal lembro de uma passagem que me marcou. Isso deve ter sido em começos de 1975, quando eu era repórter policial. Foi assim: coisa de uma e meia da tarde toca o telefone. Sozinho na redação atendi. Entra em cena a voz de Domício Ramalho, veterano repórter de polícia então cobrindo crimes na esfera do judiciário. Ele disse:

– Barreto, corra lá nas Rocas que mataram um. Não sei como foi, somente me informaram que mataram um lá nas Rocas. Vá lá e apure.

– Tá ok, vou lá –  respondi.

Ora, Domício era escolado, sabia muito. Na editoria de polícia ele formava dupla imbatível com Pepe dos Santos, o maioral de todos nós, cheio de fontes e informações. Eu era um foca que sequer estudava jornalismo, fazia o curso de direito. Reunindo todas as forças da minha inexperiência chamei um motorista e desci a ladeira, a Kombi do jornal voando. Como fotógrafo tinha comigo Iremar Araújo, o Bárbaro. Tinha pouco mais de metro e meio de altura mas era o cão em matéria de polícia. Costumava dizer:

– O cara pra andar comigo deve ter razão e preconceito. E amarrar as pontas da camisa que é pra não voar.

Expliquei rapidamente o que acontecia, Bárbaro acenou que sim com a cabeça e partimos. Chegando às Rocas, mais exatamente no Canto do Mangue, a Kombi parou. Saltamos e surgiu aí o primeiro desafio do foca: o local do crime estava isolado com cordas. Era passar ou perder a matéria. Inexperiente e ainda por cima tímido como sutiã de freira, de repente fui tomado por um ímpeto de decisão: era fazer ou fazer. 

Se não fizesse, Alexis Gurgel, o jornalista que estava me ensinando as primeiras letras do jornalismo, seria capaz de me matar; isso se não fizesse algo pior, se é que existe algo pior que a morte. Pensando bem existe, pelo menos existia, para mim existia: eram as explosões de raiva de Alexis. Assim, era melhor apurar bem aquela matéria. 

Saindo da Kombi, quase correndo, ergui a corda, passei por baixo e gritei, levantando a mão esquerda, como se ali estivesse uma carteira de jornalista: – Diário de Natal!

Deu certo: minha invisível carteira e o poderoso nome do jornal fizeram um guarda ceder espaço àquele projeto de repórter. Outro soldado fez um gesto e eu ingressei no território do crime. Bárbaro estava parado, tinha sido retido pelos policiais. Em meio àquela inesperada autoridade, berrei: – Entra, Bárbaro! Passa! 

O pingo de gente tomou coragem, enfiou-se por baixo da corda e logo estava a meu lado. Metemos o pé e chegamos ao ponto do crime. Vi ali a mais terrível cena da minha vida: técnicos do Itep pegavam um corpo de mulher e jogavam-no num caixão feito de lata. Seguravam pelos pés e pelas mãos, balançavam para um lado e para o outro para dar impulso, até atirá-lo no sinistro ataúde.

A mulher, de um moreno escuro, cabelos muito negros, estava nua e o corpo jorrava sangue. Nada menos que 75 facadas a haviam abatido. Eu vendo aquilo e fazendo anotações rápidas, a vista esquadrinhando a desgraça. Bárbaro feito um louco fotografando tudo. 

Entramos na casa onde havia sido o crime. Na verdade era um estabelecimento comercial, creio que de venda de pescado. Alguém disse: – Vejam como ficou o banheiro – e imediatamente fomos para lá.

Quando entramos, tudo parecia cenário de filme de terror: o chão lavado de sangue, as paredes recobertas de azulejo estavam literalmente pintadas de vermelho. Marcas de mãos nas paredes davam o indício de como aquele mulher fora morta. 

A tragédia tinha sido assim: a mulher era amante da um bandido conhecido como Mansinho, que cumpria pena na Colônia Penal João Chaves, o Caldeirão do Diabo. Ele tivera permissão para visitá-la e tinha vindo a Natal escoltado por um soldado. Agora, veja só a trama, digna de Nelson Rodrigues: o soldado era também amante da amante de Mansinho. Já sentiu o peso, não?

Pois bem, o bandido, esperto que só ele, fazia de conta que nada sabia, mas intimamente tinha a vingança premeditada. Mas, como vingança é prato que se come frio, esperou que o soldado estivesse de serviço e pediu a licença, certo de que o tal seria seu acompanhante: assim, despejaria sobre a mulher o peso do seu ódio sem que o outro nada pudesse fazer em sua defesa . 

Dito e feito: chegaram às Rocas e, quando o soldado o deixou entrar na casa e ser recebido pela mulher, Mansinho puxou para baixo uma porta de metal era uma porta daquelas de loja, que ele fechou e trancou por dentro. Então começou o horror: depois de se satisfazer como macho, Mansinho abriu a discussão, bateu mão de uma faca e começou o estrago golpe após golpe. Ferimentos profundos, talhos por todo o corpo. 

A mulher gritava, louca e nua, e ele trabalhava firme, cevando nela o ódio amealhado e borbulhante. Daí as marcas de mãos nas paredes do banheiro, o chão empapado em sangue. Ela tentava fugir em desespero inútil. Do lado de fora o policial nada podia fazer: batia na porta, chutava, tentava inutilmente levantar o aço que protegia e amparava o crime. A mulher lutou o que pôde, até que a vida lhe fugiu. O corpo tombou pesado. 

Mansinho, satisfeito, pegou uma escada de pedreiro que inexplicavelmente estava por lá, subiu, saltou o muro dos fundos e escapou. Os vizinhos ouviram o tumulto e chamaram a polícia. Os soldados vieram, arrombaram a porta e encontraram a desgraça feita. 

Como notícia ruim anda ligeiro, Domício soube, me acionou e aí começou tudo o que você acabou de ler. De lá para cá já se passaram 37 anos. Passaram-se como quem passa um minuto olhando o mundo de esguelha.

Enfim, era isso: o Diário de Natal hoje é saudade, não lembro o nome da mulher e nunca mais ouvi falar de Mansinho.   

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