segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dia de ira ou o abismo de nós
Emanoel Barreto

Leio nas coisas de jornal do mundo o drama: mulher em dia de fúria, armada com revólver de pequeno calibre promove matança na Alemanha. Até me lembra meus tempos de repórter policial, quando escrevia matérias a respeito de desordeiros e de uma certa Maria Saberé: bêbada eternamente, habititual frequentadora das cadeias da velha Ribeira, sempre envolvida em confusões.

À época eu era muito jovem e inexperiente. Maria Saberé era apenas mais um personagem dos muitos personagens sobre os quais tratava. Jamais me passou a ideia de entrevistá-la, saber quem era, como realmente vivia. Na verdade muitas vezes eu estava mais para redator que repórter. Pepe dos Santos era o chefe da área, o cara, aquele que sabia tudo do submundo. Eu transformava a algaravia de informações que ele recolhia em textos inteligíveis.

Era ele quem trazia as informações sobre Saberé, invariavelmente assim traduzidas por mim: "A mulher Fulana de Tal (não lembro o nome dela), conhecida como Maria Saberé, foi presa ontem no Bar do Buraco Preto após promover (isso mesmo, promover) quebra-quebra, completamente embriagada" e lá se ia o resto da notícia. Por isso nunca conheci Maria Saberé.

Hoje, sem dúvida, ela teria um tratamento editorial aprofundado. Nada de sociológico ou coisas do tipo. Mas uma visão jornalística aprofundada, reveladora do ser humano e suas condições de loucura, arrebatamento, devaneios sórdidos urdidos em meio ao também muito sórdido mundo em que vivemos.

Quanto ao caso da mulher alemã é exemplo clássico, nelson-rodriguiano, da vida como ela é. Alguém dominado por paixão violenta, paixão como explosão e jato de sentimentos brutos, atira-se a atirar para todos os lados como quem grita "eu não aguento mais".

E lá se foi ela a disparar; distribuindo pânico, morte, destruição. A insanidade da vida, a loucura compartilhada, o corre-corre, o medo e afinal ela morta. Abatida, como se diz no noticiário de tragédias. Apenas isso: abatida. Maria Saberé de alguma forma vive em todos nós. Somente precisamos do momento preciso para que ela comece a fazer um quebra-quebra.
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Abaixo, a notícia que embasou esta crônica.


Drama familiar pode ter sido causa de matança em hospital na Alemanha

Da France Presse


Um drama familiar pode ter sido a causa da tragédia que ocorreu no domingo em Loerrach, sudeste da Alemanha, quando uma mulher de 41 anos matou seu ex-marido, o próprio filho e o funcionário de um hospital antes de ser morta pelas forças de segurança, indicou nesta segunda-feira a polícia da cidade.


"Há motivos para acreditar que os corpos encontrados no apartamento são do ex-companheiro sentimental da mulher e do filho do casal", de cinco anos, informou a polícia de Loerrach, perto da fronteira franco-suíça.


Várias pessoas ficaram feridas, e algumas delas permanecem em estado grave.


Por volta das 13h (horário de Brasília) de domingo, os bombeiros receberam uma chamada alertando sobre uma explosão seguida de incêndio em um apartamento próximo ao hospital Santa Elisabeth de Loerrach.


Ao chegar ao local, os bombeiros ouviram tiros e viram uma mulher sair do prédio com "uma arma de pequeno calibre" em direção ao hospital.


"Ela disparou contra dois pedestres, que ficaram gravemente feridos, mas estão fora de perigo", afirmou a polícia nesta segunda-feira.


No hospital, a mulher "matou um auxiliar de enfermagem e disparou contra um policial", que também sofreu ferimentos graves. Em seguida, foi abatida pelas forças de segurança.
Uma vez apagado o incêndio no apartamento, os bombeiros encontraram os corpos calcinados de seu ex-marido e do filho. Exames preliminares apontam que os dois foram mortos a tiros antes da explosão e do incêndio, mas esta hipótese ainda será confirmada por uma autópsia.


Ao todo, 17 pessoas ficaram feridas na explosão e no incêndio.
Imagem:http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=20204364&postID=1187704705095157996

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